Defender a Vida e Amparar os Mais Vulneráveis

Hoje gostaria de propor uma reflexão em cima de dois trechos de dois documentos da Igreja escritos pelo Papa Francisco: a exortação apostólica Evngelii Gaudium (24/11/2013) e a carta apostólica Misericordia et Misera (20/11/2016).

Defender a vida não é apenas se opor a ações que provoquem a morte física. Para defender a vida como um todo, é preciso também amparar os mais vulneráveis, em diversas esferas: Corpo e alma, e isso inclui o intelecto.

A Igreja SEMPRE sai em defesa dos mais vulneráveis e acolhe os que sucumbiram. E sucumbiram justamente por causa da vulnerabilidade. Então, está na base da Igreja defender a vida e amparar os mais vulneráveis, que é acolher os pecadores que buscam restaurar a sua vida.

Infelizmente, a vida está em processo de relativização, sobretudo em relação ao seu valor e, o que é importante sim, a hierarquização do valor da vida. Isso eu digo para fixar logo a base de que a vida humana é sim superior e com maior dignidade do que qualquer outra forma de vida. E isso não significa desprezar e nem muito menos diminuir a importância e o valor das outras formas de vida. Ao contrário, afirmar o valor superior da vida humana e sua dignidade é colocar cada coisa em seu devido lugar e, aí sim, atribuir responsabilidades. Quanto maior o valor, necessariamente maior será a responsabilidade. Ter consciência correta dessa responsabilidade é fundamental para o equilíbrio das relações naturais e sociais.

“213. Entre estes seres frágeis, de que a Igreja quer cuidar com predileção, estão também os nascituros, os mais inermes e inocentes de todos, a quem hoje se quer negar a dignidade humana para poder fazer deles o que apetece, tirando-lhes a vida e promovendo legislações para que ninguém o possa impedir. Muitas vezes, para ridiculizar jocosamente a defesa que a Igreja faz da vida dos nascituros, procura-se apresentar a sua posição como ideológica, obscurantista e conservadora; e no entanto esta defesa da vida nascente está intimamente ligada à defesa de qualquer direito humano. Supõe a convicção de que um ser humano é sempre sagrado e inviolável, em qualquer situação e em cada etapa do seu desenvolvimento. É fim em si mesmo, e nunca um meio para resolver outras dificuldades. Se cai esta convicção, não restam fundamentos sólidos e permanentes para a defesa dos direitos humanos, que ficariam sempre sujeitos às conveniências contingentes dos poderosos de turno. Por si só a razão é suficiente para se reconhecer o valor inviolável de qualquer vida humana, mas, se a olhamos também a partir da fé, «toda a violação da dignidade pessoal do ser humano clama por vingança junto de Deus e torna-se ofensa ao Criador do homem» (João Paulo II, Exort. ap. pós-sinodal Christifideles Laici).

214. E precisamente porque é uma questão que mexe com a coerência interna da nossa mensagem sobre o valor da pessoa humana, não se deve esperar que a Igreja altere a sua posição sobre esta questão. A propósito, quero ser completamente honesto. Este não é um assunto sujeito a supostas reformas ou «modernizações». Não é opção progressista pretender resolver os problemas, eliminando uma vida humana. Mas é verdade também que temos feito pouco para acompanhar adequadamente as mulheres que estão em situações muito duras, nas quais o aborto lhes aparece como uma solução rápida para as suas profundas angústias, particularmente quando a vida que cresce nelas surgiu como resultado duma violência ou num contexto de extrema pobreza. Quem pode deixar de compreender estas situações de tamanho sofrimento?” (Evangelii Gaudium)

A Igreja tem predileção pelos mais frágeis

A Igreja tem predileção pelos mais frágeis e machucados. PONTO! Devido a sua altíssima dignidade, a dignidade de Corpo Místico de Cristo que por si é a própria Dignidade encarnada, o mais digno de todos e de tudo, a Igreja também se vê responsável em relação aos que mais precisam de cuidado. Por isso seu cuidado se estende a toda criação.

Em um tempo de completo relativismo (sobretudo de cunho moral), a Igreja se sente responsável a se posicionar e colocar as coisas nos seus devidos lugares. (Parênteses: por isso tanta polêmica em cada documento e declaração que a Igreja faz. Por isso tentam relativizar as falas e documentos de muitos – senão todos – os Papas. Principalmente os mais recentes, e quanto mais recente, mais “polêmico”).

Uma das coisas mais ameaçadas (e relativizadas) nos dias de hoje é exatamente a dignidade humana. E essa relativização passa pelo aborto. Como afirma o Papa, os nascituros são os mais frágeis e inocentes e justamente por isso os maus  atacam primeiro, inclusive inventando meios de impossibilitar que se possa impedir que o aborto avance. Isso tem acontecido em diversos meios e de diversas formas, sobretudo por meios jurídicos, nas universidade, editoras e meios de comunicação.

Defender o nascituro é tão importante pois é através dele que se pode derrubar e relativizar a dignidade humana. Claro, como afirma o Papa, se derrubar a integralidade da dignidade humana em todas as etapas e momentos de sua vida, destrói-se o edifício inteiro da dignidade humana, deixando à mercê dos homens a decisão de quando o ser humano passa a ser digno e em que condições ele será digno.

é de suma importância proteger os nascituros para manter a dignidade humana

Relativizar o quando e em que condições o ser humano é digno é se abrir para um terreno perigosíssimo da eugenia. Cabe ressaltar que na eugenia os auto titulados “seres superiores” se acham mais dignos que os demais, mas ignora por completo as responsabilidades. Ou seja, um completo relativismo.

Para que esse tipo de coisa não aconteça, a Igreja afirma o tempo inteiro a Verdade que “Todo ser humano tem igual dignidade, a dignidade de filhos de Deus”. Assim, todos nós somos responsáveis uns pelos outros e, aqueles que “se acham mais dignos” também devem “se sentir os mais responsáveis”, tendo em vista a dignidade divina.

É daí que entra também a necessidade de olhar também para as pessoas que estão enfraquecidas, que sofreram violência (física, psicológica e intelectual), que estão fortemente tentadas e, inclusive, talvez até principalmente, as pessoas que acabaram sendo cooptadas e sucumbiram à tentação de realizar terríveis atos, como o aborto.

Tendo em vista essas pessoas que infelizmente sucumbiram à ideologias perversas, mas que se arrependeram, o Papa emitiu, exatamente 3 anos depois do Evangelii Gaudium, o esclarecimento sobre a necessidade de acolher os feridos, acolher os vulneráveis, o Misericordia et Misera.

Cabe antes de comentá-lo, uma pequena reflexão…

Existe alguém que possa estar em estado de maior vulnerabilidade do que aquele que se encontra em pecado mortal, ou seja, que se encontra em seríssimo risco de perder a sua vida eterna, sendo condenada eternamente, na morte eterna?

Aqueles que cometeram pecados graves, quando perdoados, tendem a lutar contra o pecado que cometeu

Não existe pecado que Cristo não tenha pagado na cruz para restaurar. Se você apontar apenas um, você relativiza a infinita dignidade de Cristo e a perfeitíssima reconciliação que Ele estabeleceu na Cruz.

Voltando, então, três anos depois da exortação apostólica Evangelii Gaudium o Papa Francisco publicou a carta apostólica Misericordia et Misera tocando exatamente neste ponto de reconhecer a fragilidade humana e a infinita misericórdia divina para com aqueles que se arrependem dos seus atos.

“12. Em virtude desta exigência, para que nenhum obstáculo exista entre o pedido de reconciliação e o perdão de Deus, concedo a partir de agora a todos os sacerdotes, em virtude do seu ministério, a faculdade de absolver a todas as pessoas que incorreram no pecado do aborto. Aquilo que eu concedera de forma limitada ao período jubilar fica agora alargado no tempo, não obstante qualquer disposição em contrário. Quero reiterar com todas as minhas forças que o aborto é um grave pecado, porque põe fim a uma vida inocente; mas, com igual força, posso e devo afirmar que não existe algum pecado que a misericórdia de Deus não possa alcançar e destruir, quando encontra um coração arrependido que pede para se reconciliar com o Pai. Portanto, cada sacerdote faça-se guia, apoio e conforto no acompanhamento dos penitentes neste caminho de especial reconciliação.” (Misericordia et Misera)

Para completar esse trecho, trago a parábola contada por Jesus a Simão sobre o perdão:

“Então Jesus lhe dirigiu a palavra: ‘Simão, tenho algo para te dizer’. Ele respondeu: ‘Fala, Mestre’. ‘Certo credor, retomou Jesus, tinha dois devedores. Um lhe devia quinhentos denários e o outro, cinquenta. Como não tivessem com que pagar, perdoou a ambos. Qual deles o amará mais?’ Simão respondeu: ‘Aquele ao qual perdoou mais’. Jesus lhe disse: ‘Julgaste corretamente’.” (Lc 7, 40-43)

Quem muito é perdoado, tende a amar muito. E o arrependimento de quem foi perdoado impele-o a combater o erro que ele outrora cometeu.

Ora, essas mulheres que cometeram tais barbaridades com seus filhos, assim como todos aqueles que um dia promoveram ou defenderam tal barbárie, quando arrependidos e perdoados, geralmente se tornam grandes e eficientes combatentes contra o aborto. E eles ainda possuem uma arma poderosíssima que é o testemunho de mudança de vida e mentalidade, o perdão e o acolhimento. Essa arma somente eles possuem.

Então, que possamos, junto com a Igreja, não só combater a Cultura da Morte e promover a Cultura da Vida, mas perceber que é necessário defender a vida e amparar os mais vulneráveis, que inclui os pecadores arrependidos de seus atos.

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