A moral cristã proíbe o uso de armas?

O que está por trás da polêmica religiosa com as armas?

Em período de eleição presidencial é comum que muitas pautas venham a tona. Entretanto, entre os cristãos a que mais pegou foi a Pauta levantada pelo presidenciável Jair Messias Bolsonaro: A possibilidade das pessoas terem armas para defender sua Residência ou propriedade. Muitos argumentam que isto seria uma atitude anti cristã, outros dizendo que seria uma espécie de legitimar violência. Além da famosa e desinformação Brasileira o que tem por trás desses discursos? Esse artigo irá analisar a questão numa perspectiva religiosa, com um pouco de filosofia. Não entraremos aqui em dados estatísticos ou análises sociais. Iremos tratar dos problemas que assolam a má compreensão de uma comovisão cristã por parte de muitos que ignoram se aprofundar no conhecimento da sua própria fé. Cabe lembrar também que, como sou católico, estarei me baseando no tripé da fé católica: Bíblia, tradição e Magistério. Em especial: Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino.

1) O Problema do Mal

Quando uma pessoa começa a dizer que o fato de alguém portar ou possuir uma arma já implica num ato maléfico, temos a nossa frente uma falta de compreensão sobre o mal. Porque no fundo o que essa pessoa diz é: armas=violência. Entretanto, se formos investigar e entender em que se fundamenta a relação entre bem e mal na fé da Igreja veremos que essa não é uma associação cristã a ser feita. Santo Agostinho, Século IV, antes de sua conversão enfrentou diversos dilemas filosóficos, um deles pairava exatamente nessa perspectiva: de onde vinha o mal praticado pelos seres humanos? Ao procurar respostas ele se deparou com uma seita chamada: Maniqueus. A doutrina dos maniqueus afirmava que haviam dois deuses: um bom e um mal e que por meio deles foram criadas coisas que tinham o bem e o mal em si; daí eles elegiam tudo o que havia de mais nobre e atribuíam como criação do deus bom e aquilo que soava mais cotidiano era atribuído ao deus mal. Um exemplo: A inteligência humana por ser algo nobre e advindo do espírito era fruto da criação do deus bom e o dinheiro por ser motivo de consequências ruins e ser material seria criado pelo deus mau. Assim sendo, essa doutrina (muito antiga) era chamada de “Maniqueísmo”, uma derivação do Gnosticismo em sua raiz. Por anos, Santo Agostinho se deparou com essa situação. Até que ele conheceu Platão e, consequentemente, Jesus Cristo; e compreendeu que a maldade de um ato não era algo que vinha de um objeto, o mal não possuía um ser. Mas era antes disso a corrupção de um bem.

“Vi claramente que todas as coisas corruptiveís são boas (…); A corrupção de fato é um mal, porém, não seria nociva se não diminuísse um bem real. Portanto, ou a corrupção não é um mal, o que é impossível, ou tudo aquilo que se corrompe sofre uma diminuição de bem.” (AGOSTINHO, Confissões; pg 191–192. ED. Paulus)

Sendo assim, na moral cristã aquilo que chamamos de Mal é um bem numa escala inferior. Então, um pecado sexual é um mal porque corrompe um bem (o prazer do sexo ordenado aos casais, a geração dos filhos). É como se na criação houvesse uma hierarquização dos bens e todos estes devessem se dirigir ao Sumo Bem (Virtude da prudência é responsável por isso). Assim, vemos que atribuir o ato do assassinato, Genocídio, mortes, a uma arma não condiz com a moralidade cristã; pois a arma em si mesma não produz o mal, mas somente quando dirigida por um ser humano para que outro tenha a privação de um bem (tirar a vida, roubar o outro), isso é somente o antigo argumento maniqueísta onde o mal estava direramente relacionado aos objetos e não as ações. Uma noção importante também é que este tipo de pensamento corrompe a personalidade do indivíduo, pois se ele é capaz de atribuir culpa a objetos inanimados, jamais vai entender a responsabilidade de assumir a culpa pelos seus próprios erros transferindo-a sempre para estes.

2) A Virtude da Justiça

Um outro fator de péssimo entendimento é a noção de Justiça. A cultura marxista em nosso país nos faz piamente acreditar que Justiça é igualdade, entretanto não é esse o sentido do termo. Mas antes de falarmos da virtude da Justiça entendamos o que é virtude. Segundo Santo Tomás de Aquino, virtude é:

“Uma boa qualidade da mente, pela qual vivemos retamente, de que ninguém pode usar mal, e que Deus obra em nós, sem nós” (AQUINO, Tomás; ST I-II Q.55 a-4)

Segundo essa definição a virtude é uma orientação da alma, dada por Deus, segundo a qual JAMAIS podemos fazer o mal. Assim, partimos para a definição de justiça: vontade perpétua de dar a cada um o seu direito (St II-II, q.58, a.3, resp). A justiça se divide em duas partes: Comutativa e distributiva. Quando alguém evoca que “Não é necessário possuirmos uma arma para nos defendermos, pois o estado já o faz” estamos falando da justiça distributiva, que rege a relação entre a parte e o todo; ou seja, essa justiça em especifico trata de como é a relação entre o sujeito e a sociedade, a pessoa e o estado. Já no caso que estamos tratando tem a ver com a justiça comutativa, onde é pessoa a pessoa, e aí teremos um balanceamento de ato por ato e a compensação também seguirá essa mesma proporção.

Quando falamos que uma pessoa pode possuir uma arma a fim de se defender as pessoas acreditam isso não ser justo ou que seja um ato mal. Mas não o é. Como dissemos anteriormente: o mal é uma corrupção de um bem. O mal estrito que o ser humano provoca visa eliminar ou reduzir um bem; entretanto, quando falamos em defesa estamos discutindo sobre a conservação de um bem através da prática de um mal aparente. Em resumo, o mal é tremendamente vedado a nós cristãos quando este é a motivação principal, mas quando a ação se fundamenta na preservação da nossa vida (um bem) a atitude não se constitui em um mal. Veja o que Santo Tomás diz; trecho transcrito do livro “A ética das virtudes em Santo Tomás de Aquino” do Bernardo Veiga:

“É lícito matar para se defender, a legítima defesa, em uma ação de duplo efeito, quando não se deseja diretamente a morte do agressor, mas a conservação da própria vida e se tolera uma possível consequência de morte do agressor. Mas tal defesa só pode ser realizada sem ultrapassar a violência necessária.” (AQUINO, Tomás; ST II-II, Q.64, a.7)

Isso quer dizer que: a legítima defesa não visa diretamente o mal (matar o oponente) mas sim o bem (preservar a vida). E também tem de ser proporcional: ou seja, eu não vou tirar a vida de quem apenas quer tentar roubar um celular, posso usar a arma para afugentar ou amedrontar, mas matar não seria lícito nesse caso exceto se fosse sem a devida intenção. Disso deduzimos que para analisar se uma ação é moralmente boa ou não, teremos de sair das aparências e dos objetos e também analisar: a intenção que o sujeito tem ao cometer o ato.

O catecismo também irá dizer que a legítima defesa é um grave dever e um direito a cada cidadão, sendo assim, se há ameaças ao meu redor que possuem um poder de fogo x eu também tenho direito a possuir esse poder de fogo em proporção. Se nossos assaltantes possuíssem apenas facas, não teria problema em apenas possuir estes num caso de um confronto.

2264 O amor a si mesmo permanece um princípio fundamental da moralidade. Portanto, é legítimo fazer respeitar seu próprio direito à vida. Quem defende sua vida não é culpável de homicídio, mesmo se for obrigado a matar o agressor: Se alguém, para se defender, usar de violência mais do que o necessário, seu ato será ilícito. Mas, se a violência for repelida com medida, será lícito… E não é necessário para a salvação omitir este ato de comedida proteção para evitar matar o outro, porque, antes da de outrem, se está obrigado a cuidar da própria vida.

Alguns irão falar sobre o versículo que Jesus diz no Sermão da montanha sobre dar a nossa face a tapa (Mt 5, 38–42). Disso, Santo Agostinho comenta o seguinte:

“Muito pelo contrário, o próprio Senhor, que praticou primeiro os preceitos que ensinou, se não ofereceu a outra face a um servidor do sacerdote que lhe magoara o rosto, senão que disse a ele: Se falei mal, mostra o que eu disse de mal; mas, se falei bem, por que me feres? [Jo, 15, 23], não deixou todavia de estar disposto, no coração, não só a ter ferida a outra face, mas a que lhe fosse crucificado o corpo todo.” (AGOSTINHO, Sobre o Sermão do Senhor na montanha; Pg 92, Ed Santo Tomás)

Não transcrevi as falas anteriores porque são muito extensas, entretanto, essa que coloquei já exprime o sentido correto. Santo Agostinho passa por diversas atitudes que São Paulo teve e ele percebe que: ora ele dava a face, ora ele não dava. Daí ele investiga se ele estaria fazendo ou agindo assim por má vontade, e conclui pelos evangelhos que isso seria impossível (basta ver o ardor missionário de São Paulo). Ele deduz que este age assim por conveniência, ou seja, esse conselho dado por Jesus (De dar a outra face) não é um preceito, algo a ser realizado indefinidamente em todas as situações, mas algo que deve ser usado de acordo com a situação a fim de gerar a conversão ou evangelização de outros; e para corroborar essa tese ele comenta a passagem do tapa que o Soldado romano dá na face de Jesus mostrando que este também não ofereceu a outra face e seria impossível determinar isso como falta de virtude do Senhor quando Ele mesmo, logo depois, ofereceu a vida toda na Cruz. Acontece que, Santo Agostinho também comenta em parágrafos posteriores, muitos usam desse conselho para fingirem ser cristãos e por isso o transformam em preceito, quando na verdade, é uma atitude que deve brotar do interior segundo a conveniência de cada situação e não de forma absoluta. Concluindo, vimos que do âmbito da Justiça cristã também não há incoerência.

3) A Virtude da Fortaleza

Santo Tomás define a virtude da fortaleza como:

“Uma virtude especial que tem por objeto o medo extremo, principalmente das coisas mais difíceis que podem impedir a vontade de seguir a razão, e também se refere à audácia, na medida em que afasta o terror e garante persistir diante das maiores dificuldades. Cabe a ela, de fato, manter a vontade firme de modo que não ceda ao medo de um mal físico. E como o maior dos males físicos é a morte, seu objeto mais especifico é ser furme diante do medo da morte.” (AQUINO, Tomás de; STh, II-II q.123, a.1–4)

Sendo assim, podemos ver que o uso de uma arma para se defender (seja ela qual for, afinal, não existem apenas armas de fogo) não somente é um direito ou dever mas um ato virtuoso. Chesterton diz “Havia muito mais coragem por metro quadrado na Idade Média, quando nenhum rei possuía um exército permanente, mas sim cada cidadão possuía um arco ou uma espada”. Vivemos numa era em que os cristãos, por conta da falta de sinceridade, preferem terceirizar para o estado virtudes que deveriam ser suas: a caridade afim de que o estado ajude os pobres enquanto ele senta e cruza os Braços, a justiça contra a discriminação para que movimentos sociais façam militância política e usem pessoas para alcançar agendas de poder, e agora a fortaleza: usa-se do estado como escudo para evitar o ato de nobreza que deveria partir de nós. Isso também ocorre porque no imaginário popular Jesus se parece muito mais com John Lennon do que com um São Luís (Rei da França e Cruzado). Precisamos ser cristãos e exigir o nosso direito em termos meios para sermos heróis e corajosos.

4) Considerações Finais

Quero que quem chegou aqui possa entender uma coisa: é fato que a Igreja não diz aos seus fiéis “Comprem uma arma urgentemente na esquina!” mas também ela não demoniza como muitos querem dar a entender. Ela não critica e não condena quem deseja possuir uma segundo os critérios aqui citados. Há ainda inúmeros motivos que eu poderia citar, como o fato de se defender de uma possível ditadura ou a prática de esporte, mas o principal é que não podemos permitir ou se deixar levar pela mentalidade mundana e pacifista que nos trata como cordeirinhos e baratas prontas a serem exterminadas sem possibilidade de resistência, lembrem do Papa Paulo VI: Os cristãos são pacíficos, jamais pacifistas. Que ao ler este artigo você possa dizer como Faramir, em Senhor dos Anéis:

A guerra deve acontecer, enquanto estivermos defendendo nossas vidas contra um destruidor que poderia devorar tudo; mas não amo a espada brilhante por sua agudeza, nem a flecha por sua rapidez, nem o guerreiro por sua glória. Só amo aquilo que eles defendem: a cidade dos Homens de Númenor, e gostaria que ela fosse amada por seu passado, sua tradição, sua beleza e sua sabedoria presente. Não que ela fosse temida, a não ser da maneira que os homens temem a dignidade de um homem velho e sábio.” As Duas Torres: “A janela sobre o Oeste,” p. 286

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