As Sete Dores de Nossa Senhora (por Santo Afonso – Glórias de Maria)

1ª Dor de Maria – Profecia de Simeão

Disse a Virgem a S. Matilde que esse vaticínio se lhe mudou toda alegria em tristeza. Efetivamente, como foi revelado a S. Teresa, a bendita Mãe sabia dos sacrifícios que seu Filho devia fazer da vida para a salvação do mundo. Mas naquele momento, de um modo mais particular e distinto, conheceu as penas e a cruel morte, reservada a seu pobre Filho no futuro.

[…]

[Maria] recebeu com suma paz a profecia sobre a morte do Filho, e continuou a sofrer sempre em paz. Mas, vendo sempre diante dos olhos aquele amável Filho, que dor pareceria então continuamente!

[…] Grande foi o tormento de Abraão durante 3 dias de jornada para o monte Mória, com seu amado Isaac, ciente de que ia perdê-lo. Entretanto, ó Deus! não três dias, mas trinta e três anos, sofreu Maria pena semelhante. […] Maria revelou a S. Brígida não ter vivido um momento na terra, em que não fosse dilacerada por essa dor.

[…]

A aflita Mãe sabia de todos os pormenores das penas preparadas a seu Filho. Ao dar-lhe de beber, pensava no vinagre e no fel que haviam de oferecer. Ao envolvê-lo em faixas, já em mente antevia as cordas de sua prisão. Ao carregá-lo nos braços, recordava a cruz de sua crucificação. Ao vê-lo dormindo, lembrava-se do sono da morte que o esperava.

[…]

Ora, se Jesus crescia em estima e amor para os homens, quanto mais então para sua Mãe Santíssima! Mas, ah! com o aumento do amor, mais aumentava também a dor, à só lembrança de perder esse Filho por uma tão cruel morte. E quanto mais se avizinhava o tempo da Paixão, mais cruelmente a espada, predita por Simeão, atravessava o coração materno de Maria.”

2ª Dor de Maria – Fuga para o Egito

“Logo conheceu a aflita Mãe como já começava a verificar-se no Filho a profecia de Simeão. […] Viu que, apenas nascido, já o perseguiam e queriam matar. ‘Que pesar para o coração de Maria, escreve S. Pedro Crisólogo, ao ouvir a intimação do cruel exílio, ao qual ela e o Filho eram condenados! Foge dos teus para os estranho, do templo do verdadeiro Deus para a terra dos ídolos!’.

[…]

A viagem durou pelo menos trinta dias, […] era o caminho desconhecido e péssimo, cortado de carrascais e pouco frequentado. Estava no inverno e a Sagrada Família teve de viajar debaixo de aguaceiros, neves e ventos, por estradas alagadas e lamacentas. […] Meu Deus! como excita a compaixão ver essa tenra virgenzinha, com esse Menino recém-nascido ao colo, fugindo por esse mundo!

[…]

[No Egito] sofreram extrema pobreza, durante sete anos que permaneceram escondidos. […] Eram estrangeiros, desconhecidos, sem rendimentos, sem dinheiro e sem parentes.

[…]

Jesus e Maria passaram pelo mundo como fugitivos. Eis uma lição para nós. Temos de viver na terra como peregrinos, sem apegos aos bens que o mundo nos oferece. Pois depressa teremos de deixá-los para passarmos à eternidade.

[…]

‘Toma o Menino e sua Mãe’, disse o anjo a S. José. Aquele que traz com amor a esse Filho e a essa Mãe em seu coração, tornam-se leves e até suaves e agradáveis todas as penas. Amemo-los portando; consolemos Maria, acolhendo em nosso coração a seu Filho, que hoje ainda continua a ser perseguido pelos pecados dos homens.”

3ª Dor de Maria – Perda de Jesus

“Quem é cego de nascença, pouco sente a privação da luz do dia. Mas quem já teve vista e gozou da luz, muito sofre vendo-se privado pela cegueira. O mesmo se dá com as almas que estão espiritualmente cegas por causa do pó das coisas deste mundo. Pouco conhecem a Deus e pouco sentem a pena de não o encontrar. Mas aquele que, iluminado pela luz celeste, foi achado digno de gozar simultaneamente do amor e da presença do Sumo Bem, oh! esse sofre amargamente, quando se vê privado de tudo isso. Por aí meçamos quanto foi dolorosa para Maria essa terceira espada de dor. Estava acostumada à contínua alegria da dulcíssima presença de Jesus, e eis que agora o perde em Jerusalém e dele se vê longe, durante três dias.

[…]

Maria nas outras dores tinha Jesus consigo. Padeceu amargamente pela profecia de Simeão no templo. Padeceu na fugida para o Egito, mas sempre com Jesus. Na presente dor, porém, sofreu longe de Jesus e sem saber onde ele estaria. […] Que longos foram esses três dias para Maria, a quem eles pareceram três séculos. Dias cheios de amargura, em que nada a podia consolar!

[…]

Sofria a Mãe dolorosa vendo-se privada de Jesus, diz Landspérgio, porque em sua humildade se julgava indigna de estar ao lado dele e tomar conta de um tão grande tesouro. […] Não há, certamente, pena mais cruciante para uma alma amante de Deus, do que o receio de o haver desgostado.

[…]

Essas penas de nossa Mãe devem primeiramente servir de conforto às almas que se veem privadas das consolações e da suave presença do Senhor. […] Cobrem ânimo e não temam por isso ter perdido a graça divina. […] Esconde-se, muitas vezes, para ser procurado com maior amor e desejo. Mas quem quiser achar Jesus, precisa procurá-lo não entre os prazeres e as delícias do mundo, porém entre as cruzes e mortificações.

[…]

Se Maria se lamentou da perda do Filho, por três dias, quanto mais deveriam os pecadores chorar a perda da graça divina. […] Ainda que os pecadores possuíssem todos os bens da terra, tendo perdido a Deus, tudo o mais outra coisa não é que ‘fumaça e aflição’.”

4ª Dor de Maria – Encontro com Jesus a Caminho do Calvário

“Partiu Maria com S. João. Da passagem do Filho lhe faltavam os rastros de sangue pelo caminho, conforme ela mesma o disse e S. Brígida. Boaventura Baduário fala de um atalho que a Mãe aflita tomou para ficar depois esperando numa esquina pelo Filho atribulado. Aí estava à espera dele, quando foi reconhecida pelos judeus e deles teve de ouvir injúrias contra seu amatíssimo Jesus.

[…]

Maria, à vista do Filho que caminhava para o Calvário, não desmaiou. […] Não morreu, porque o Senhor a reservava para maiores aflições. Embora não morresse, padeceu, entretanto, tormento suficiente para lhe dar mil mortes. […] A amorosa Mãe não quer abandonar a seu Jesus, embora vê-lo morrer lhe deva causar acerbíssima dor. Adiante vai o Filho, e atrás segue a Mãe para ser crucificada com ele, diz Guilherme, abade.

Escreve S. João Crisóstomo: Até das feras nos compadecemos. Víssemos uma leoa acompanhando seus leõezinhos à morte, e mesmo dessa fera teríamos compaixão. E não nos apiedamos de Maria, que vai seguindo o Cordeiro Imaculado, levado ao suplício? Participemos, pois, de sua dor; com ela acompanhando seu Divino Filho, levando pacientemente as cruzes que nos manda o Senhor. Pergunta S. João Crisóstomo: por que razão quis Jesus Cristo sofrer sozinho nas outras dores, e somente nesta aceitar que o ajudasse o Cirineu a levar a cruz? E responde: para ensinar-nos que só a cruz de Jesus não bastará para a nossa salvação, se não carregamos também a nossa com resignação até à morte.”

5ª Dor de Maria – Maria Assistiu a Agonia de Jesus na Cruz.

“Trata-se de uma mãe condenada a ver morrer diante de seus olhos, no meio de bárbaros tormentos, um Filho inocente e diletíssimo. […] Contemplai-a junto da cruz, ao lado de seu Filho moribundo e vede se há dor semelhante à sua dor.

[…]

Mas de que servia, ó Senhora minha, irdes presenciar no Calvário a morte de vosso Filho? […] Ah! o vosso coração não cuidava então da própria, e sim da dor e da morte do Filho querido. Por isso quisestes assisti-lo e acompanhá-lo com vossa compaixão. Ó Mãe verdadeira, diz o Vulgato Boaventura, ó Mãe amante, que nem o horror da morte pode separar do Filho amado.

[…

Aquele que então estivesse presente no Calvário, […] veria dois altares onde se consumavam dois grandes sacrifícios: um era o corpo de Jesus, outro era o coração de Maria. […] A cruz e os cravos feriram ambos, o Filho e a Mãe; juntamente com o primeiro foi também crucificada a segunda. O que faziam os cravos no corpo de Jesus, operava o amor no coração de Maria. De modo que, enquanto o Filho sacrificava o corpo, a Mãe sacrificava a alma.

[…]

Ah! Mãe de todas a mais aflita! ó Maria, a vós é imposto assistir Jesus moribundo, mas não vos é facultado procurar-lhe alívio algum.

[…]

Maior ainda era o sofrimento, ao ver que com sua presença aumentava a pena do Filho. […] ‘A plenitude das dores do coração de Maria derramou-se como uma torrente no Coração de Jesus. Sim, Jesus na cruz sofria mais pela compaixão de sua Mãe, que por suas próprias dores. Junto à cruz estava a Mãe, muda de dor; vivia morrendo, sem poder morrer’.

[…]

A Virgem não cessava de oferecer à Divina Justiça a vida do Filho pela nossa salvação. Por aí vemos o quanto cooperava pelos seus sofrimentos para fazer-nos nascer à vida da graça. E se nesse mar de mágoas, que era o coração de Maria, entrou algum alívio, então este único consolo foi certamente o animador pensamento de que, por suas dores, cooperava para a nossa eterna salvação.”

6ª Dor de Maria – Lançada e Descida da Cruz

“Almas devotas, escutai o que hoje vos diz a Mãe dolorosa: ‘Filhas diletas, não quero que procureis consolar-me, porque meu coração já não pode achar consolação na terra, depois da morte de meu caro Jesus. Se quereis dar-me gosto, vinde e vede se houve no mundo dor semelhante à minha, ao ver como me arrebataram com tanta crueldade Aquele que era todo o meu amor’.

[…]

‘Um dos soldados lhe abriu (a Jesus) o lado com uma lança, e imediatamente saiu sangue e água’ (Jo 19,34). A esse golpe de lança tremeu a cruz, e o coração de Jesus foi dividido, como por revelação o soube S. Brígida. Saiu sangue e água, pois do primeiro restavam apenas essas últimas gotas. Quis o Salvador derramá-las para nos mostrar que já não tinha sangue que nos dar. […] A lança, que abriu o lado de Jesus, transpassou a alma da Virgem, que não podia separar-se do Filho.

[…]

Eis que descem o Salvador da cruz em que morrera! Ó Virgem sacrossanta, destes com tanto amor vosso Filho ao mundo, e vede como ele vo-lo entrega!

[…]

Ergue-se a Mãe, relata Bernardino de Busti, estende os braços para o Filho, abraça-o e senta-se aos pés da cruz. Contempla-lhe a boca aberta e os olhos obscurecidos; examina seu corpo rasgado pelas chagas e os ossos descobertos. Tira-lhe a coroa, e vê que horríveis chagas os espinhos fizeram naquela sagrada cabeça.

[…]

A Santíssima Virgem revelou a S. Brígida que, quando desceram seu filho da cruz, ela lhe cerrou os olhos, mas não pôde fechar os braços. Jesus dava-nos assim a entender que seus braços hão de ficar sempre abertos para acolher todos os pecadores arrependidos.

[…]

O Coração de Jesus foi ferido, diz S. Boaventura, a fim de nos mostrar pela chaga visível o seu amor invisível.”

7ª Dor de Maria – Sepultamento de Jesus

“Uma mãe, que se acha presente aos sofrimentos e à morte do filho, sente e sofre incontestavelmente todas as suas dores. Mas depois, quando o vê morto e prestes a ser sepultado, oh! então, o pensamento de deixá-lo, para nunca mais tornar a vê-lo, causa-lhe uma dor que excede todas as outras dores.

[…]

Levam o Sagrado Corpo à sepultura. Forma-se o cortejo fúnebre e os discípulos acompanham-no, juntamente com as santas mulheres. Entre as últimas, caminha a Mãe dolorosa, levando também ela o Filho à sepultura. Ter-se-ia a Senhora de boa mente sepultado viva com o Filho, […] mas, esta não sendo a divina vontade, acompanhou resignada o sacrossanto corpo de Jesus ao sepulcro. […] Era-lhe ardente o desejo de sepultar também sua alma com o Filho.

[…]

Maria deixa seu coração sepultado com Jesus, porque lhe é Jesus o único tesouro. “Porque onde está o vosso tesouro, aí está também o vosso coração” (Lc 12,34). E nós onde sepultamos o nosso? Nas criaturas, talvez? no desprezível pó? Por que não em Jesus? Ainda que haja subido ao céu, quis entretanto permanecer no meio de nós no Sacramento, justamente para possuir e guardar nossos corações.”

>> Veja a Ladainha de Nossa Senhora das Dores

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